Coligir

Não se atropela, por favor - ela disse -, não passa por cima de si…

a voz da consciência, coligir

Yesterday
Love was such an easy game to play
Now I need a place to hide away
Oh, I believe in yesterday

Yesterday, Beatles

- Gostaria de saber exatamente em qual momento nós demos errado. Por quê demos errado. - então eu me lembrei que se ainda fôssemos um casal, estaríamos sentados um ao lado do outro, encostando tanto quanto fosse possível do corpo. Mas agora, depois de todos esses abismos, seus olhos estavam de frente. Suas mãos pareciam nervosas segurando o copo de vidro, ocupadas em se segurarem em algo que fosse real. Agarradas àquilo que podia ser tocado por pelo menos um de nós.

- Nós nos descuidamos, só isso. - respondi. A verdade era que eu tinha passado tempo demais questionando a vida atrás de uma resposta que divindade alguma poderia me fornecer. A verdade era que eu já tinha me machucado demais e chorado demais e perdido demais. - Todo mundo comete erros, alguns piores que outros. Mas erros, no final, apenas erros.

- Nós realmente nos amamos, né? - ele sorriu. Aquele sorriso de lado que nunca deixaria de ser o sorriso mais bonito do mundo. Ou aquela voz que nunca deixaria de ter a melhor sonoridade que os meus ouvidos já ouviram cantar o meu nome. Ou aquela risada que duraria eternidades dentro de mim, porque duraria. - Nós realmente podíamos ter nos amado pra sempre.

- Mas não nos amamos. - naquele momento percebi que aqueles olhos sempre carregariam o meu olhar favorito e eu não consegui entender. Não consegui entender porquê eu continuava lembrando do nome dele todos os dias ou porquê seu rosto inundava meu coração em determinados momentos ou porquê eu simplesmente não conseguia deixar de querê-lo. Talvez não fosse ele, realmente. Talvez fosse apenas a promessa de um futuro que nunca pôde ser meu ou pelo gosto das escolhas que me foram privadas, não sei. A única coisa que eu sabia era que, naquele momento, eu tive medo por mim e por ele e pela vida que aguardava minhas zilhões de respostas cedo ou tarde demais. Temi por tudo que viria e o que já tinha ido e o que nunca pôde vir. - Acho que era pra ser assim.

- O engraçado é que nenhuma das nossas conversas nunca tem um fim, já percebeu isso? Nunca um ponto final, só umas reticências. Parece que a gente nunca vai acabar, entende? 

Não consigo dizer exatamente quantas coisas passaram pela minha cabeça naquele instante. Não consigo verbalizar tudo o que eu senti ou todas as lembranças que flutuaram diante de mim, diante daquele momento e daquela pessoa que eu jamais seria capaz de abandonar mesmo que isso fosse tudo o que eu mais desejasse.

Uma vez eu li em algum lugar que certas pessoas a gente só ama e ponto. Sem razão aparente, mesmo que amá-la seja a decisão mais sem sentido que você possa tomar. Então, no final das contas, era isso: eu sempre o amaria. Eu sempre amaria aquele jeito de não ter jeito e de ser sem se importar com nada ou ninguém. Eu sempre amaria aqueles olhos e aquelas mãos e aquela voz. E esse era o fim pra mim. O meu último capítulo. O meu ponto final.

- É… Acho que, muito antes de você, eu percebi.

E mais uma vez a nossa despedida apenas prolongava alguma outra sessão de desapego que ainda estava por vir.

dos meus diálogos imaginários, coligir

Já não dói, mas dá saudade…

euo:
“I miss you. I miss not touching each other. Not seeing each other, not breathing in each other. I want you. All the time. No one else.”

Blue is the Warmest Color (2013) dir. Abdellatif Kechiche

euo:

I miss you. I miss not touching each other. Not seeing each other, not breathing in each other. I want you. All the time. No one else.

Blue is the Warmest Color (2013) dir. Abdellatif Kechiche

Eu coloquei meus pés no chão nos últimos dias, sempre pela manhã desde aquela tarde. Desde que vislumbrei o purgatório e o tantinho de luz que invadia a minha sala de estar. E então tive a coragem de abrir as portas e as janelas da minha casa. Eu soube que a vida finalmente tinha cansado de ser escura, apesar de solidão. Mas que é que tem problema a solidão?

Só queria saber se faria alguma diferença se lhe dissesse que senti mais do que o céu na Terra, mais do que o inferno abrindo-se debaixo dos meus pés. Diga-me, em algum momento mudaria algo ou alguém da sua história se eu lhe confessasse que ainda sinto tanto, tanto, tanto apesar de não gritar mais nada pra ninguém? Faria alguma diferença se eu ainda lhe propusesse a minha vida e a sua vida também?

coligir

Alguém perguntou às borboletas se elas não preferiam ficar no céu ao invés de nos nossos estômagos bobos e apaixonados?

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